domingo, janeiro 25, 2009

Enjôo

"Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!"
Florbela Espanca

Dor. A única palavra em que ela podia pensar. Do joelho no asfalto correndo atrás da bolinha de gude. Da garganta na última vez em que chorou uma hora e quarenta minutos sem parar. Pele. Alma.
Se de uma fotografia naquele estado, do ângulo em que a mão ainda tampasse um dos olhos inchados, seria bonita. Mas não de quando se via o reflexo. Embora o cabelo amassado e a boca seca sugerissem um olhar mais prolongado. Era só o retrato de alguém que bebeu demais - bebeu demais da vida! sentia-se completamente enjoada. Cada tentativa de bochecho era uma ânsia que saltava. E não só por doer sentiu raiva sem pensar em nenhum palavrão, provavelmente inconsciente do sentimento - o que sentia era só uma parte de vida.

sábado, janeiro 10, 2009

Confessarei aqui segredos do meu mais íntimo. Pra começo de conversa costumo ser exagerada pelo prazer maldoso de ver as outras pessoas impressionadas - ou irritadas - com minhas percepções - que não deixam de ser peculiares, mas que nem por isso são interessantes. E a próxima informação é que, ironicamente, não costumo gostar de falar de mim. Absolutamente. Tenho tão bem formada a idéia de mim mesma que quando uma pessoa qualquer começa com importunas perguntas direcionadas à minha personalidade, trato de, quase rudemente, perguntar o que afinal ela deseja ouvir. O que frequentemente acontece é que me aborreço ao mesmo tempo que me delicio com a moldura que teimam em pôr em minha volta, e que muito pior do que isso, inconvenientemente tentam me fazer crer de que suas palavras estão plenas da única e pura verdade acerca de mim própria.
Quando enchem meus ouvidos com suas gabações individualistas incomodo-me muito pouco. Os principais motivos são que devo deixar que pensem o que quiserem sobre si mesmos, e que por tratar de si mesmos, deviam guardar seus elogios para os declarar quando estivessem defronte de um espelho, e por isso atenção pouca, de minha parte, é dispensada.
Que se ganha sendo óbvio? Evito quando posso não subestimar a capacidade de observação de outros.