segunda-feira, outubro 22, 2007

Banco de madeira

Não devia ter chego tão cedo, a ansiedade de esperar em casa seria automaticamente transportada para quando esperasse no ponto de encontro. Ficava dedilhando em cima da capa dura do livro. Com tanta força e nervosismo que quando as pontas dos dedos ficavam doloridas, corria o dedão pelas folhas todas, soltando-as uma a uma rapidamente.
E as folhas, quando escapavam dos dedos trêmulos e alcançavam a outra capa, deixavam escapar ventos leves e burburinhos, o que a deixava mais nervosa. Contou carneirinhos até os "trinta e oito carneirinhos pularam a cerca", mas enjoou - enjoava facilmente das coisas. Esperou durante quase quatro quartos de hora, e então, enjoou de esperar. A hora marcada tardaria a chegar... Levantou, pois, e saiu andando, cantando calmamente "And in this crazy life, and through these crazy times. Uh uh uh uh".

sexta-feira, outubro 05, 2007

Ausência - Carlos Drummond de Andrade

AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade





(Vontade de morrer um pouquinho.)