domingo, maio 18, 2008

Raras eram as vezes em que sabia o que dizer e, ainda assim, travata de mudar seu discurso. O mundo não entendia Anabela.
Tragava e soltava a fumaça do cigarro lentamente, pelo simples prazer de ver as coisas ao redor através da névoa formada. E não era essa mesma névoa que a separava de conhecer?
Todos os dias, quando Maurício saía de casa, apertava os olhos e prestava atenção ao mínimo detalhe nele, para em seguida afundar no devaneio de tentar dar sentido à vida.
Sentido? Que bobagem.
Chegava sempre a mesma conclusão. E, no dia seguinte, lá estava ela, deitada no sofá com a xícara entre os joelhos dobrados, pedindo Maurício, levante o braço esquerdo 12 centímetros, Maurício, chegue um pouquinho mais perto, Maurício te amo tanto bom trabalho; tentando, no exercício diário de encontrar alguma exclamação, uma fonte de felicidade. Não sabia, mas as dúvidas a divertiam como quase nenhuma resposta.
Anabela, Anabela; esforçava-se sempre para acreditar nas palavras de sua mãe que costumavam lhe dizer minha filha, como és bonita! Então, ao parar em frente ao espelho, contorcia-lhe o rosto em uma careta e pensava que feia não era, mas acho que essa minha beleza se dá por eu ser fresca. O frescor da pele era o que mais lhe chamava atenção. Mas Maurício pouco se importava com isso. Como insistia em lhe dizer, todas as manhãs, depois de levantar o braço 12 centímetros, Anabela, te amo também meu amor. Já te disse como mexes comigo quando fazes essa cara de desconfiada, dedilhando seus dedos finos na fria porcelana da xícara? E a abraçava forte, porque ela sentia o coração bater acelerado, uma felicidade incontrolável lhe atravessando a pele do peito, esparramando-se, esparramando-se...
Preferia vestir o moletom cinza dele pela manhã, mas, em segredo, vestia as camisas de botão de cores fortes: sabia que era assim que ele gostava, e que era assim que a paixão dele não morria e não adormecia.
Como o amava! Sorria e dançava, com os braços abertos, vestida com o moletom cinza claro, ao saber que sua paixão também crescia e era desperta todas as manhãs num número infindável de dias, mesmo ele não vestindo propositalmente roupa alguma. Tinha certeza que era por isso e que era sim! ele.
Ao crepúsculo, tentava organizar suas reflexões e ria sozinha do embaralho que isto lhe custava. Era, entretanto, sua vida, ela mesma, despida, a amar, mesmo que sofridamente, os sóis, as gotas de chuva, alguns graus a menos, graus a mais. E seu Maurício, cuja presença lhe causava êxtase. Amo a dor frágil causada pelo vento a percorrer os labirintos dos meus pêlos eriçados. Sim, Maurício. Sim.

4 comentários:

Lia disse...

Que amor bonito. Já disse que gosto quando as pessoas falam sobre amor, né?
Eu gosto e gosto muito.

:)

- disse...

a-do-re-i

Tata disse...

Gostei foi muito do que li, Emily. Viajei na história.

Beijo.

Ah, adicionei seu link a meu blog, tá?
Bom fds!!!

:)

Tata disse...

Obrigada, Emily. Também 'gosto é muito' dos seus escritos.

Beijoca!! :)